O que antes parecia apenas um embate político ganhou contornos econômicos concretos — e preocupantes. Parauapebas, historicamente protagonista absoluto da mineração no Pará, começa a ver sua principal fonte de receita encolher justamente em meio a uma sequência de conflitos institucionais com a mineradora Vale.
Os dados mais recentes escancaram a mudança de cenário. Em março de 2026, Canaã dos Carajás assumiu a liderança na arrecadação de CFEM no estado, com R$ 51,3 milhões, enquanto Parauapebas ficou em segundo lugar, com R$ 43,4 milhões. A diferença de quase R$ 8 milhões em apenas um mês é simbólica — e revela uma inversão inédita entre dois municípios vizinhos, sendo que Parauapebas possui população significativamente maior e, até pouco tempo, concentrava a maior fatia da atividade mineral.
O alerta se torna ainda mais grave quando se observa a evolução dos números ao longo dos últimos anos:
- Janeiro de 2024: R$ 73.804.606,53
- Janeiro de 2025: R$ 51.579.544,13
- Janeiro de 2026: R$ 57.857.634,29
Na prática, houve uma queda de aproximadamente R$ 22,2 milhões de 2024 para 2025 — uma retração superior a 30% logo no início da nova gestão. Mesmo com a leve recuperação em 2026, o município ainda arrecada cerca de R$ 16 milhões a menos do que no período anterior aos conflitos mais intensos.
E não para por aí. Dados de 2025 já indicavam um cenário ainda mais preocupante: até maio, a arrecadação acumulada de CFEM havia registrado uma queda de 37%, totalizando R$ 275,5 milhões, reforçando uma tendência de perda de fôlego financeiro.
Esse movimento ocorre paralelamente ao acirramento da crise política local. A chamada CPI da Mineração, presidida pelo vereador Alex Ohana, tentou avançar sobre a fiscalização dos repasses da CFEM, levantando suspeitas de divergências bilionárias. A iniciativa, no entanto, foi barrada pelo Supremo Tribunal Federal, com decisão unânime da 1ª Turma sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que entendeu que o município extrapolou sua competência ao tentar investigar tributos federais.

Ao mesmo tempo, o prefeito Aurélio Goiano elevou o tom contra a Vale, chegando a acusar publicamente a empresa de dever cerca de R$ 10 bilhões ao município e classificando-a como uma das maiores sonegadoras do planeta. As declarações, feitas inclusive em um palco internacional durante a COP30, ampliaram o desgaste institucional.

O problema é que, enquanto o discurso político se intensifica, os números contam outra história.
Canaã dos Carajás, com população muito menor, não apenas ultrapassou Parauapebas em arrecadação mensal, como vem consolidando crescimento consistente, impulsionado principalmente pelo projeto S11D — um dos maiores complexos de mineração de ferro do mundo operado pela própria Vale.
Nos bastidores, a leitura é inevitável: embora fatores como mercado internacional, preço do minério e planejamento operacional influenciem diretamente a CFEM, o ambiente de insegurança institucional em Parauapebas pode estar contribuindo para a perda de protagonismo do município.
A conta é simples — e dura: menos arrecadação significa menos investimento em saúde, infraestrutura e serviços básicos. Em uma cidade altamente dependente da mineração, qualquer retração na CFEM tem efeito direto na qualidade de vida da população.
Diante desse cenário, cresce a pergunta que começa a ecoar dentro e fora dos bastidores políticos: até que ponto o confronto vale a pena, quando os números indicam que o maior prejudicado pode ser o próprio município?
Porque, ao que tudo indica, enquanto a disputa política avança, Parauapebas pode estar ficando para trás.



